28/05/2008

Sons e Arte. Viola Campaniça -Um Artigo de Rosa Dias


Com o título em epígrafe, recebemos da nossa associada Rosa Guerreiro Dias um artigo interessantíssimo, acerca de um património ímpar, que merece leitura atenta:"A viola popular portuguesa chegou até aos nossos dias sob várias formas e denominações: Braguesa, Ramaldeira, Amarantina, Toeira, de Arame da terra, e no Sul do País, Campaniça.Descendente da viola barroca, a viola popular portuguesa, chega a nós com cinco cordas duplas.No Baixo Alentejo tomou o nome característico de Viola Campaniça.A origem do nome vem, inquestionavelmente, da sua radicação na zona do Campo Branco, geograficamente situada na região que compreende os concelhos de Aljustrel, Ourique, Castro Verde, Almodôvar, indo até parte do concelho de Odemira.Na primeira metade da década de 1980 foi feita uma investigação sobre a viola campaniça. Aquando de sua fase exploratória verificou-se que os tocadores deste instrumento já estavam todos numa idade muito avançada, como são os casos de Manuel Bento (Funcheira) e Francisco António (Ourique Gare).Nos finais da década de 1990, gera-se um movimento de renascimento e entusiasmo em torno da Viola Campaniça, surgindo jovens tocadores do instrumento, entre os quais Pedro Mestre, de quem passo agora a falar.
HISTÓRIAS REAISEsta história vem “à balha”, no modo de se dizer no nosso Alentejo, porque tive o privilégio de conhecer um jovem, de nome Pedro Mestre, cuja história me encantou! Pedro nasceu na Aldeia da Sete, concelho de Castro Verde, onde ainda reside.Desde o berço que o som da Viola Campaniça e o cante o acompanham, pois sua mãe, mulher de boa voz, cantava e encantava, não só a todos quantos a ouviam, como a seu menino que cresceu com o cante e o som da viola na alma.Aos dez anos Pedro Mestre entrou para o coral infantil “Os carapinhas”. Aos doze anos aprendeu a tocar Viola Campaniça com o mestre Francisco António, mais conhecido por Chico Bailão, homem possuidor de um dom musical genuíno que se notava logo que abraçava a Viola Campaniça e a fazia vibrar para encanto de quem o ouvia. Entre tais lá estava o pequeno Pedro, sempre presente nestas manifestações musicais.Passa mais um ano sobre a vida do jovem e aos treze anos entra no coral masculino “Os Ganhões”.Não passou despercebida a ninguém a capacidade e o empenho que ele punha nesta sua preferência musical. Passado mais um ano assumiu o cargo de Mestre Ensaiador do mesmo grupo.Em 2001 fundou dois grupos corais da Freguesia de Santa Barbara de Padrões: Grupo Coral Etnográfico “Os Cardadores” e Grupo Etnográfico “As papoilas”, sendo também Mestre Ensaiador dos mesmos.Pedro Mestre é conhecido em todo o Alentejo e além fronteiras, como sendo parte do património português, o que lhe traz grande orgulho e também uma grande responsabilidade.A prova está na constante divulgação que ele faz desta arte musical, que lhe foi transmitida por homens do saber, os seus mestres.Em 2002 assume o lugar do seu Mestre Chico Bailão, dando assim continuidade ao Grupo de Violas Campaniças de Castro Verde, no qual fica tocando ao lado do mestre Manuel Bento.A paixão de Pedro por este instrumento musical leva-o a dedicar-se à sua construção, arte que depressa aprende ao lado do artesão Amílcar Silva, que lhe transmite o seu saber e faz do jovem mais um artesão da Viola Campaniça.Em 2003 fundou na Aldeia da Sete a associação de Cante Alentejano “Os Cardadores”, com o objectivo de preservar usos e costumes do Concelho de Castro Verde.Nesse mesmo ano e em 2004 foi formador na Escola / Oficina de Violas Campaniças, dinamizada pela Cortiçol – Cooperativa de Informação e Cultura de Castro Verde.Em 2007 teve participação especial no espectáculo multicultural “O homem que à terra canta”, no “ IV Encontro de Culturas de Serpa”, que reuniu artistas de Portugal, Brasil, Espanha e Cabo Verde.No mesmo ano lançou, ao lado do violeiro de São João Del Rei, Minas Gerais, Brasil, Chico Lobo, o cd “Encontro de Violas - Viola Campaniça e Viola Caipira”, trabalho inédito que demonstra bem como duas culturas podem interagir e, neste caso, pelas cordas de Violas.Neste momento é animador de música tradicional e cante Alentejano nas escolas do 1º ciclo do ensino básico do concelho de Almodôvar no âmbito das actividades extracurriculares promulgadas pelo Ministério da Educação em parceria com as autarquias locais.Iniciou esta actividade no ano lectivo de 2006/2007.Pedro Mestre já editou vários trabalhos discográficos com Grupos Corais, dos quais é mestre e mantém actualmente a tradição do toque da Viola Campaniça.O País enriqueceu e os campos do nosso Alentejo perderam a tristeza e a solidão, pois este menino feito homem vai espalhando sons harmoniosos dum cante musicado que lhe sai da alma.Percorre o País e o estrangeiro. Ainda no ano de 2007 esteve em digressão pelo longínquo Brasil, onde foi grande sucesso ao lado de Chico Lobo.O seu trabalho com a Viola Campaniça é apresentado em três formas: uma, com o “Grupo de Violas Campaniças”, acompanhado por vozes femininas; outra acompanha improvisadores do cante de despique e baldão; outra apresenta modas campaniças a solo, acompanhado por outros instrumentos (Viola ritmo, Viola baixo e Percussão).Há quem diga que só pode saber muito quem muito viva. Pois bem, esta história verídica contradiz este dizer: Pedro Mestre é ainda um jovem de vinte e poucos anos, bem no início da vida, e já nos conta tanta vivência!Como se dará este fenómeno?Só vejo uma explicação: Pedro Mestre é mestre na arte e a arte dum Mestre não tem idade, apenas contém saber.Fico feliz por partilhar convosco o que sei, de alguns valores que conheço e que fazem parte do património português.Desta vez o valor em questão chama-se ”Pedro Mestre”.


a aldraba
" ASSOCIAÇÃO DO ESPAÇO E PATRIMÓNIO POPULAR"


Sons e Arte. Viola Campaniça - Um Artigo de Rosa Dias

1 comentário:

Antony disse...
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